08. Estudo da Bíblia (Parte VIII - Os Quatro Evangelhos)

No Antigo Testamento temos a preparação para o Messias como o Profeta, Sacerdote e Rei que havia de vir. O Pentateuco mostra a necessidade de um Sacerdote, porque aí é que aparece o sacerdócio de Arão, que havia de ser incompleto. Os Livros Históricos, de Josué a Ester, mostram a necessidade de um Rei, pois nos contam como fracassaram os líderes e reis do povo de Deus. E nos Livros Poéticos eProfetas, de Jó a Malaquias, sentimos a necessidade de um perfeito Profeta, que cumprisse e completasse a revelação que nos transmitiram os antigos profetas. O A.T. é um livro de profecias não cumpridas, de cerimônias não explicadas e de anseios não satisfeitos.  No N.T., porém, temos os quatro Evangelhos no qual aparece o Messias, que cumpre as profecias na sua vida, explica as cerimônias na sua morte e satisfaz os anseios na sua ressurreição. Cumpre as profecias na sua vida como Profeta, explica as cerimônias na sua morte como Sacerdote e satisfaz os anseios na sua ressurreição com REI.

Depois dos evangelhos, seguem-se Atos e as Epístolas, que podem ser designadas pelo termoApropriação, pois mostram as várias maneiras como o Senhor é recebido, apropriado, aplicado e apreciado na vida dos indivíduos e das comunidades. Finalmente, o N.T. conclui com o livro do Apocalipse, que apresenta o cumprimento de tudo o que precedeu no plano e propósito de Deus.

Assim sendo, o N.T. abrange o passado, o presente e o futuro em seu prospecto magnífico. Os Evangelhos apresentam o amor de Deus e de Seu Filho; os A.T.os e as Epístolas, a Sua graça; e o Apocalipse, a Sua vitória. E correspondendo a isto, temos as três bênçãos espirituais: perdão para o passado, poder para o presente e paz para o futuro.

Portanto, o coração da Bíblia e do Cristianismo é “Emanuel” – “Deus Conosco”. Por este motivo, podemos dizer que os quatro Evangelhos são o centro da Bíblia, porque neles é que temos a vida terra, a obra de nosso Senhor na realização de nossa redenção (salvação) e Seus ensinamentos a respeito do Reino. Tudo o que precedeu os Evangelhos, no A.T., foi uma preparação para o aparecimento de Emanuel (do Cristo); e tudo o que se seguiu, no Novo Testamento, foi conseqüência desse aparecimento. Podemos, portanto, dizer que os Evangelhos são o ponto convergente e divergente das Sagradas Escrituras. Este fato prova a suprema importância do estudo e da revelação dos quatro Evangelhos.

 

I) COMO ESTUDAR OS QUATRO EVANGELHOS

A palavra “evangelho” nunca é usada no N.T. para designar um livro, mas é sempre usada com o sentido exclusivo de “boas novas”. Quando falamos, por exemplo, do Evangelho de Mateus, queremos significar as boas novas de Jesus Cristo registradas por Mateus. Este fato se pode ver no primeiro versículo do Evangelho de Marcos, que diz: “Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus”. Sendo assim, existe na realidade somente um Evangelho e quatro apresentações do mesmo. É por isso que em nossas Bíblias se lê: O Evangelho segundo (de acordo com) Mateus, Marcos, Lucas e João. Os quatro Evangelhos apresentam quatro retratos de um Cristo só, e o valor deles se encontra na harmonia dos relatos que os quatro dão ao Messias.

a) Por que quatro Evangelhos?

É provável que nenhum Evangelho pudesse sozinho apresentar a plenitude e a glória da Pessoa e da Obra de nosso Senhor. Além disse, há o princípio bíblico da confirmação, os ensinos de Jesus precisam ter mais de uma testemunha, para provar sua veracidade. Se há quatro versões sobre a vida, feitos e ensinamentos de Jesus, uma coisa é certa: significa que é um assunto de suma importância.

Só iremos compreender as “quatro dimensões” de Cristo na comunhão dos santos: “... a fim poderes compreender, com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus.”Ef 4:18, 19.

b) Um retrato completo de Cristo

Já no segundo século, os pais da Igreja viam ou julgavam ver uma semelhança entre os Quatro Evangelhos e os querubins das visões de Ezequiel e do Apocalipse. Observe os textos abaixo?

“Há diante do trono um como que mar de vidro, semelhante ao cristal, e também, no meio do trono e à volta do trono, quatro seres viventes cheios de olhos por diante e por detrás. O primeiro ser vivente é semelhante a leão, o segundo, semelhante a novilho, o terceiro tem o rosto como de homem, e o quarto ser vivente é semelhante à águia quando está voando”; Ap 4:6, 7.

“A forma de seus rostos era como o de homem; à direita os quatro tinham rosto de leão; à esquerda, rosto de boi; e também rosto de águia todos os quatro”Ez 1:10.

A simbologia é que Mateus apresenta Cristo como o Messias dos judeus, o Leão da Tribo de Judá; Marcos, como o Servo, simbolizado pelo boi (novilho ou bezerro), o servo por excelência do homem; Lucas, como Filho do Homem, simbolizado pelo animal com o rosto de homem; e João, como o Filho de Deus, simbolizado pela águia voando nas alturas. Esta compreensão já havia nascido bem cedo na Igreja Primitiva.

Por isso, note as ênfases e expressões que os quatro Evangelhos dão a respeito da pessoa de Jesus, descrevendo-O com características dos quatro seres viventes:

  • Mateus (O Rei, o Leão da Tribo de Judá):Mateus escreve o seu Evangelho pensando no período de transição do A.T. para o N.T.,  pensou nos judeus e nos judeus cristãos que estavam se convertendo a Cristo. Nele se pressupõe conhecimento do A.T., do qual se fazem abundantes citações – é o Evangelho que mais tem citações do A.T.. Logo de início, Jesus Cristo é associado como sendo da linhagem real de Davi e das promessas de Deus a Abraão (1:1). Outra expressão dominante em Mateus é a palavra “cumprir-se”; 1:22., que aponta para o A.T. como tendo predito a vinda do Messias. Mateus é o Evangelho do Reino, apresenta Jesus como Rei dos Judeus e os Princípios do Reino. A genealogia nos dá a sucessão real; a mensagem de João Batista e de Cristo foi: “É chegado o reino dos céus”., e todas as parábolas, exceto três, se referem ao “Reino dos Céus”, expressão que aparece mais de trinta vezes. Deve-se dar especial A.T.enção também à maneira como o ensino de Cristo é enfatizado em Mateus. Há cinco grandes seções em que esse ensino aparece, cada uma terminando com uma frase semelhante: “Tendo Jesus acabado todos estes ensinamentos...”; 7:28; 11:1; 13:53; 19:1 e 26:1. Esse ensino se refere aos vários aspectos do Reino:
    • (1) os princípios do Reino (caps. 5 a 7);
    • (2) os discípulos do Reino (cap. 10);
    • (3) seu progresso: como o Reino se propaga, 
      valores do Reino e seleção do Reino (cap. 13);
    • (4) questões de relacionamento no Reino (cap. 18);
    • (5) o futuro do Reino e nosso preparo para vivê-Lo (caps. 24 a 25).
  • Marcos (O Servo, boi):João Marcos não conheceu Jesus pessoalmente. Ele foi sobrinho do apóstolo Barnabé e Pedro foi instrumento de sua conversão; 1 Pe 5:13. Tem-se, com freqüência, observado também que o plano do Evangelho corresponde ao esboço do discurso de Pedro em casa de Cornélio; At 10:37-43
    A ênfase não estava sobre o ensino de Jesus, mas em suas ações. Os atos de Jesus são enfatizados neste Evangelho. Marcos enfatiza que Jesus veio para servir: “Pois o próprio Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos”10:45. Marcos descreve Jesus não tendo onde reclinar a cabeça e “não tinha tempo nem para comer”;6:31. Jesus era o Servo de Jeová, Is 50:10; 52:13; 53:11.
    Como o Evangelho foi escrito em cerca de 55 d.C., e as igrejas estavam cheias de gentios convertidos, percebemos um cuidado em explicar certas expressões aramaicas; 3:17; 5:41; 7:11; 10:46; bem como na explicação de costumes judaicos; 14:12; 15:42; e também na ausência de citações do A.T. na narrativa do próprio Marcos, exceto em 1:2. Por ser escrito para uma Igreja em expansão composta de, na sua maioria de gentios convertidos, este Evangelho enfatiza a atividade, a autoridade e as ações de Cristo – seus atos mais que suas palavras.
  • Lucas (Filho do Homem, Homem Perfeito):Lucas foi companheiro do apóstolo Paulo e autor do livro de Atos (note que o livro de Atos é uma continuidade do Evangelho, pelo que você notará ao ler os últimos versículos do Evangelho e os primeiros de Atos). Lucas era médico; Cl 4:14. Por ser medico, era um escritor detalhista, pois muito observador. Por isso Lucas descreve a humanidade de Jesus: ele tem fome, tem sede e chora, mas é perfeito. Como companheiro de Paulo, escreveu o Evangelho para que as igrejas pudessem conhecer melhor a Jesus. O Evangelho foi escrito entre 50 a 60 d.C.. O propósito do Evangelho era produzir “plena certeza”, e foi escrito depois de acurada investigação dos fatos; 1:1-4. Lucas dirigiu o Evangelho, e o livro de Atos, a Teófilo (nome grego que significa “aquele que ama a Deus” ou “amigo de Deus”). Não se sabe se esse Teófilo era uma pessoa específica ou para todos que se tornaram “amigos de Deus”, nas igrejas gentílicas. 
    Lucas apresenta Jesus como o Homem perfeito, o ideal da humanidade, com especial referência ao fato de ser Ele o Salvador do mundo.
    Por escrever em uma época em que as igrejas já haviam se formado, Lucas apresenta algumas características em seu Evangelho, que tem conformidade com o Evangelho da Graça que Deus havia dado ao apóstolo Paulo:
    • É o Evangelho do Louvor: Lucas começa e termina o Evangelho com alegria; 1:14, 44; 24:41. Os primeiros hinos da Igreja Cristã encontram-se aqui: o Gloria in Excelsis, 2:14; oMagnificat1:46-55; o Benedictus, 1:68-80 e o Nunc Dimittis2:29-32.
    • É o Evangelho da Oração: Não somente enfatizam as orações de Jesus (3:21; 4:42-44; 5:16: 6:12-16; 9:28, 29; 11:1-13), mas aparecem duas parábolas sobre a oração que não se encontram em nenhum dos outros Evangelhos; 18:1-14.
    • É o Evangelho da Infância: Oferece abundantes pormenores sobre o nascimento de João Batista e de Cristo, caps. 1 e 2.
    • É o Evangelho da Mulher: Nele temos a história de Isabel, cap. 1; de Maria, a mãe de Jesus, caps. 1 e 2; das irmãs Marta e Maria, 10:38-42; da viúva de Nain, 7:12-15; das mulheres que serviam a Cristo, 8:2, 3; da mulher pecadora, 7:37-50; das mulheres que acompanhavam a Cristo chorando quando ele marchava par a cruz, 23:27-31. Lucas destacou a ênfase dada por Jesus à “Nova Mulher do Reino”, desde quando o A.T. colocava muitas restrições às mulheres. Lucas não era judeu, portanto tinha o espírito aberto para escrever sobre este assunto.
    • É o Evangelho da Graça e dos GentiosEle traz referências aos samaritanos; 10:27-33 e 17:16; e aos dez leprosos; 17:12. Veja-se, ainda, os caps. 7 e 15, onde enfatiza que a graça de Deus alcança os gentios e pecadores.
    • É o Evangelho Que Lembra dos Pobres: Lucas não esquece dos pobres; Gl 2:10. Note-se a menção dos pastores, cap. 2 e também o ensino de 6:20-25 e 16:19-31.
  • João (Águia - Jesus é aquele que voa alto, é o Verbo de Deus):O propósito do Evangelho segundo João é descrito na passagem: “Na verdade fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome”20:30, 31. A palavra CRER aparece 98 vezes em João, mais do que em todos os outros Evangelhos juntos.
    Há algumas outras características marcantes do Evangelho de João:
    • Evangelho da Universalidade: João não se preocupa com a genealogia de Jesus, começa apresentando-O como o Verbo de Deus. Apresenta, portanto, um Cristo universal. Sua linguagem também é universal: fala de luz e trevas; crença e descrença; água da vida, etc.
    • Evangelho do Amor: É o Evangelho que descreve Deus como sendo AMOR, tema desenvolvido, principalmente, em suas primeira carta.
    • Evangelho das Festas Fixas: João apresenta Jesus trazendo seus principais ensinamentos e fazendo seus principais sinais, durante as Festas Judaicas:
      • Páscoa, 2:23 (cap. 3 (tirando o fermento da casa do Pai; conversão de Nicodemos; conversão dos Samaritanos – Jesus a água viva);
      • Uma outra festa, 4:45;
      • Uma outra festa dos judeus, 5:1;
      • Outra Páscoa (marcando o segundo ano do ministério de Jesus), 6:4. Multiplicação dos pães. Jesus é apresentado como o Pão da Vida.
      • Festa dos Tabernáculos, cap. 7 e 8. Jesus é a Fonte das Águas e a Luz da Vida.
      • Festa da Páscoa, caps. 12 em diante. Última Páscoa de Jesus com Seus discípulos. Sua crucificação.

II) A Ênfase do Reino nos Quatro Evangelhos

Se você conferir as referências acerca do Reino numa concordância bíblica, irá notar que existe uma grande diferença nos quatro evangelhos quanto à ênfase dada ao reino dos céus e ao Reino de Deus.

Você encontrará um mínimo de referências no evangelho de João, o que parece estranho, uma vez que o livro de Apocalipse (também escrito por João) é completamente devotado ao Reino vindouro do Senhor Jesus e à submissão dos outros reinos ao Reino de Deus. Embora o evangelho de João provavelmente tenha sido escrito depois do livro de Apocalipse, ele não fala muito acerca do o Reino. Mas a revelação do Reino está presente.

Já o evangelho de Marcos nos fornece apenas umas poucas referências acerca do Reino. Marcos estava mais interessado na aplicação prática e imediata das verdades do que em todo um conceito do Reino que está por vir.

O evangelho de Lucas contém muitas referências ao Reino. Ele teve uma perfeita visão do Reino, pois havia se desiludido com muito do que viu no sistema mundial existente à sua época. Embora fosse um médico, Lucas se estendeu a uma revelação de Deus acerca de coisas melhores, acerca de um estado ideal que viria quando Deus estabelecesse tudo de um modo perfeito. Assim sendo, ele colocou bastante ênfase no Reino.

Mas, dentre os quatro evangelhos, o de Mateus é o que coloca maior ênfase no Reino de Deus. Mateus tinha raízes judaicas profundas (embora fosse um tipo de renegado, pois traiu seu povo ao tornar-se um coletor de impostos para os opressores romanos). Foi nesse meio que Jesus o escolheu para ser um de Seus discípulo. De acordo com o julgamento humano, os judeus o consideravam como sendo o menor, mas seu evangelho é o primeiro livro do Novo Testamento. Parece simbólico o fato do Senhor ter escolhido um judeu considerado como um dos mais baixos aos olhos de seu próprio povo para tornar-se o primeiro a proclamar o Seu Reino. E, vez após vez, o evangelho de Mateus enfatiza este maravilhoso aspecto do Reino: os últimos serão os primeiros.

Que revelação fantástica do Reino nós encontramos no evangelho de Mateus! A começar pela genealogia de Cristo, estabelecendo o fato de Ele ser o Rei e Senhor sobre quem todas as alianças do Antigo Testamento residem. Mateus apresentou as verdades de Deus como princípios do Reino. Conseqüentemente, o assim chamado "Sermão da Montanha" é considerado impraticável pela maioria dos cristãos; e até mesmo difícil de ser pregado às pessoas. A maioria das exposições tradicionais baseadas no Sermão da Montanha não passa de uma deturpação da verdade. Muitos pregadores enfatizam o ensinamento: "Faça aos outros o que você gostaria que lhe fizessem" — mas é só até aí que eles vão. Mesmo assim, o evangelho todo de Mateus traz uma profunda revelação de verdades que são muito importantes para todos os cristãos. Tanto que, ao encerrar o Sermão da Montanha, Jesus disse: "Todo aquele que pratica estas coisas, Eu o assemelho ao homem que edificou sua casa sobre a rocha, pois, quando veio a chuva e correram os rios, ela não caiu; nada conseguiu destruí-la" (Mateus 7.24-25).

 

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